Avaliação dos compostos de acácia

Introdução

As cascas de árvores são uma alternativa à turfa porque conferem propriedades semelhantes às misturas na formulação de substratos. A casca de árvores é um material barato mas que tem de ser triturado / moído, e crivado (< 2 - 3 cm) e compostado (4 - 6 meses) porque a casca fresca possui taninos, resinas, fenóis, terpenos e outros compostos que podem ser fitotóxicos. A elevada temperatura durante a compostagem também reduz a presença de patógeneos e de sementes de infestantes, para além de diminuir os riscos de imobilização de azoto nos substratos. A casca de árvores retém pouca água, mas a sua capacidade de retenção de água pode aumentar com a diminuição do tamanho das suas partículas (tem capacidade para reter água em 60% da sua porosidade total.). Contribui para uma boa drenagem do substrato, possui elevada CTC, e um valor de pH baixo a neutro. A casca de árvores mais utilizada na formulação de substratos é a casca de pinheiro.

Materiais e métodos

Os materiais e métodos utilizados para a avaliação dos compostos de acácia com casca de pinheiro foram idênticos aos utilizados para a avaliação dos compostos de acácia.

Resultados e discussão

No que se refere a características físicas (Quadro 4), verificou-se que os teores de matéria seca dos compostos de acácia com casca de pinheiro foram semelhantes aos dos compostos de acácia descritos anteriormente e aos 16 substratos comercializados em Portugal avaliados por Brito et al. (2010b). A densidade aparente destes compostos com 455 dias de compostagem foi idêntica à dos compostos de acácia com 420 dias de compostagem descritos anteriormente, enquanto a densidade real foi ligeiramente superior. Estes compostos, tal como os anteriores, possuem uma densidade aparente e uma densidade real que se encontram dentro dos limites recomendados para os substratos. O espaço poroso total foi também praticamente igual nestes compostos em comparação com os de acácia sem casca de pinheiro, e superior ao limite mínimo recomendado. A redução de volume diminuiu ligeiramente nos compostos com casca de pinheiro em comparação com os que resultaram apenas de acácia sendo, também, inferior ao limite máximo recomendado de 30%.

No que respeita a características químicas (Quadro 4), o valor de pH apesar de ser inferior nos compostos com casca de pinheiro contínua mais elevado do que os valores recomendados, o que sugere a sua utilização em misturas com turfa ou outros componentes com baixo valor de pH. A condutividade elétrica foi significativamente mais baixa nos compostos de acácia com casca de pinheiro, encontrando-se praticamente dentro do limite recomendado, ao contrário dos compostos de acácia sem casca de pinheiro que poderão ser limitados por esta característica na composição dos substratos para plantas mais sensíveis à salinidade. A capacidade de troca catiónica aumentou fortemente nos compostos com casca de pinheiro em comparação com os compostos só de acácia, assim como o teor de MO. O maior teor de MO nos compostos com casca de pinheiro explica-se pela razão deste material apresentar taxas de degradação inferiores às dos resíduos de acácia, como se constatou neste estudo (capítulo 1.2.3). Pelo mesmo motivo, a razão C/N foi superior nos compostos com casca de pinheiro em comparação com aqueles que foram produzidos exclusivamente com resíduos de acácia.

 

Quadro 4. Teor de matéria seca (MS), densidade aparente (DR), densidade real (DAp), espaço poroso total (EPT), redução de volume (RV), valor do pH, condutividade elétrica (CE), capacidade de troca catiónica (CTC), teor de matéria orgânica (MO) e razão C/N dos compostos de acácia com casca de pinheiro, com 455 dias de compostagem e com maior (A) ou menor (B) número de revolvimentos das pilhas.

Pilha

Parâmetro

Média±*DP

   …

Parâmetro

Média±*DP

A

MS (g kg-1)

360±2 b

 

pH

6,9±0,1 a

B

 

387±3 a

 

 

6,3±0,2b

A

DAp (g cm-3)

0,25±0,01 a

 

CE (dS m-1)

0,2±0,03 b

B

 

0,26±0,01 a

 

 

0,7±0,10 a

A

DR (g cm-3)

1,70±0,06 a

 

CTC (cmol+ kg-1 MO)

216±56

B

 

1,69±0,03 a

 

 

204±37

A

EPT (% v/v)

85,3±1,2 a

 

MO (g kg-1)

676±22 a

B

 

85,1± 0,9 a

 

 

688±10 a

A

RV (%)

16,0±4,9 a

 

C/N

40±1,0 a

B

 

18,4±3,7 a

 

 

41±3,3 a

*DP = Desvio padrão. As médias seguidas por letras diferentes dentro do mesmo parâmetro são significativamente diferentes (P <0,05)

 

A granulometria destes compostos não variou muito da que se referiu para os compostos só de acácia, sendo mais de metade do peso do substrato referente a partículas dentro das dimensões consideradas adequadas para um substrato permitir o fornecimento de água e suficiente arejamento (0,25 e 2,5 mm; Abad et al., 2001) e 70% do substrato possuía partículas entre 0,5 e 10 mm, aproximando-se assim do valor mínimo recomendado por Buamscha et al. (2007)

A matéria sólida dos compostos de acácia com casca de pinheiro (14,7% e 14,9% respetivamente no composto A e B) foi ligeiramente superior à dos compostos só de acácia (Figura 13). Pelo contrário a capacidade de ar (25,3% e 23,2% respetivamente no composto A e B) foi muito superior nos compostos de acácia com casca de pinheiro em comparação com os que possuíam só acácia. Por este motivo, a capacidade total de retenção de água dos compostos com casca de pinheiro diminuiu para 60% e 62% nos compostos A e B, respetivamente, valores estes significativamente inferiores aos dos compostos só de acácia. Mesmo assim, foram iguais ou superiores aos valores mínimos recomendados de 60% (Abad et al., 2001) e de 55% (Noguera et al., 2003).

A água dificilmente utilizável foi de 40% no composto A e 38% no composto B (Figura x), valores praticamente idênticos aos dos compostos só de acácia. Bem como, os de água de reserva (4,4% e 4,8% respetivamente no composto A e B) que ficaram acima do limite recomendado. No entanto, os valores de água facilmente utilizável foram inferiores nos compostos com casca de pinheiro (16% e 19% respetivamente no composto A e B) em comparação com os compostos só de acácia e inferiores ao limite mínimo recomendado de 20% por de Boodt e Verdonck (1972) como aceitável para os substratos hortícolas.

Conclusões

Os compostos de acácia com casca de pinheiro apresentaram muitas características semelhantes aos compostos só de acácia. No entanto, apresentaram piores características no que se refere à curva de retenção de água porque apresentaram maior capacidade de arejamento em detrimento de água facilmente utilizável. Se as características físicas não melhoraram com a utilização da casca de pinheiro em comparação com os resíduos de acácia, pelo contrário, as características químicas foram melhores nos compostos com casca de pinheiro, designadamente porque diminuiu o valor de pH e a condutividade elétrica, e aumentou o teor de matéria orgânica e a capacidade de troca catiónica dos compostos, quando se utilizou a casca de pinheiro na produção dos compostos.